VIDE: Filho, Pai, Filiação, Autogenes, Ageneton, Genealogia de Jesus Cristo, Cristo preexistente, FILHO
Clemente de Alexandria: Excertos Teodoto
O Filho, "luz inacessível", que é "Monogenes", "Primeiro-Nascido", é também "a Face do Pai" que nos permite conhecer o Pai. Os dois termos Monogenes e Primeiro-Nascido estão ligados. Porque Monogenes ("Único-Engendrado") e Filho, é também "Primeiro-Nascido", primeiro ser distinto (de certa maneira) a partir do Pai. Donde: "Primeiro-Nascido da criação" (Col 1,15): porque começou a manifestação do Pai em se distinguindo dele, todo o resto será criado neste Monogenes, e por ele.
Quanto à assimilação dos eleitos aos Anjos superiores ou Protoctistas que contemplam diretamente o Filho (Face do Pai), veja-se Natureza do Filho. Os Anjos dos pequeninos contemplam sem cessar a "Face do Pai". Estes são os sete "Protoctistas". Os pequeninos, quer dizer os eleitos, terão a mesma contemplação, a seu grau final de perfeição (teleia prokope). Os Arcanjos não contemplam senão os Protoctistas.
Joaquim Carreira das Neves: Escritos de São João
Jesus é chamado no evangelho e nas cartas de João, "Filho de Deus", enquanto que os cristãos são chamados "filhos de Deus". Esta distinção diz bem da relação única de Jesus com o Pai. Em 1,18 ele é o FILHO ÚNICO (monogenes, diferente de UNIGÊNITO, como usualmente se traduz, por influência da Vulgata de S. Jerónimo, que traduziu por "unigênito" para responder a Ario que defendia que Jesus "foi feito" e não "gerado").
Como Filho, Jesus é o enviado (shaliah) do Pai: "O Pai entregou todas as coisas nas mãos do Filho" (Jo 3, 35). Como Filho, Jesus depende do Pai e obedece ao Pai (Jo 5,19): "O Filho, por si mesmo, não pode fazer nada, senão o que vir fazer ao Pai, pois aquilo que este faz também o faz igualmente o Filho". O interessante deste texto consiste no fato de o Filho não apenas estar sujeito à obediência e na dependência do Pai, mas de "fazer também aquilo que o Pai faz" (cf. Jo 3,34; Jo 7,28; Jo 8,26.42; Jo 10,32. 37; Jo 12,49). Desta forma, existe um conhecimento recíproco entre o Pai e o Filho (Jo 10, 15: "assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai...", que faz com que o Filho revele o Pai (Jo 1,18: "O Filho único, que é Deus e está no seio do Pai, foi ele quem o deu a conhecer"; Jo 8,38: "Eu comunico o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que vistes ao vosso Pai (o diabo)"; Jo 15,15: "... mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai"; Jo 17, 25-26).
Quando o evangelho apresenta a unidade do Pai e do Filho, é sobretudo a partir da unidade na obra da revelação e salvação (Jo 8,16: "Mas, mesmo que eu julgue, o meu julgamento é verdadeiro, porque não estou só, mas eu e o Pai que me enviou"; Jo 10, 25-30: "v. 25:".... as obras que eu faço em nome de meu Pai, essas dão testemunho a meu favor"... v. 29: "O que o meu Pai me deu vale mais que tudo e ninguém o pode arrancar da mão do Pai"; Jo 14,10-11: "Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As coisas que eu vos digo não as manifesto por mim mesmo: é o Pai, que, estando em mim, realiza as suas obras. Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em mim; crede-o, ao menos, por causa dessas mesmas obras"). As obras de Jesus são as ações e obras de Deus.
EU SOU A VERDADE
Compreender o homem a partir do Cristo, compreendido ele mesmo a partir de Deus, repousa por sua vez sobre uma intuição decisiva de uma fenomenologia radical da Vida, que é precisamente também aquela do cristianismo: a saber, que a Vida tem o mesmo sentido para Deus, para o Cristo e para o homem, e isso porque não há senão uma única e mesma essência da Vida e, mais radicalmente, uma só e única Vida. Esta Vida que se auto-gera ela mesma em Deus e que, em sua auto-geração, gera nela o Arque-Filho transcendental como a Ipseidade essencial na qual esta auto-geração se cumpre, é a Vida da qual o homem ele mesmo tem seu nascimento transcendental, e isso precisamente enquanto ele é Vida e definido explicitamente como tal no cristianismo, Filho desta Vida única e absoluta e assim Filho de Deus. A expressão tautológica “Filho de Deus” — posto que não há filho a não ser na Vida e assim em Deus — oculta esta verdade abissal que a essência do homem, o que a torna possível como esta que ele é realmente, não é precisamente o homem no sentido onde nós o entendemos, ainda menos não se abre qual humanitas, é a essência da vida divina — aquela que faz dele um vivente, e ela somente.
A tese do homem “Filho de Deus” recebe então uma dupla significação, negativa e positiva. Negativamente, ela interdita compreender o homem como um ser natural assim como o fazem o senso comum e as ciências. Mas ela interdita também de compreendê-lo, do ponto de vista transcendental, como um ser do qual o mundo constituiria o horizonte de todas suas experiências, o modo de aparecer comum a cada uma delas. É portanto a afirmação maciça pronunciada pelo Cristo sobre ele mesmo que deve ser retomada a respeito do homem e de sua essência verdadeira: «Eu não sou deste mundo» (Jo 17,14). Assim como o Cristo, eu homem não sou do mundo neste sentido fenomenológico radical que o aparecer do qual é feita minha carne fenomenológica, a qual constitui minha essência verdadeira, não é do aparecer do mundo. E isso não por efeito de algum credo pressuposto, filosófico ou teológico, mas porque o mundo não tem carne, porque no “fora de si” do mundo nenhuma carne nem nenhum viver são possíveis — os quais não se edificam jamais alhures senão no constringir patético e acósmico da Vida.
A interpretação do homem como "Filho de Deus", ou mais precisamente como "Filho no Filho", está repleta de múltiplas implicações. Antes de continuar a elucidá-las, no entanto, há uma pergunta que não pode ser adiada. Se os homens e as mulheres são de fato esses Filhos de Deus em Cristo, por que tão poucos deles sabem disso e se lembram disso? Se eles carregam dentro de si essa Vida divina e sua imensidão, porque não há outra Vida além desta e os vivos só precisam se curvar sob sua profusão, como podemos entender que eles sejam tão infelizes? Pois, em última análise, não são as tribulações que lhes chegam do mundo que os oprimem. De fato, é com eles mesmos que estão tão infelizes. É sua própria incapacidade de realizar seus desejos e planos, suas hesitações, sua fraqueza, sua falta de coragem que causam o mal-estar que os acompanha durante toda a sua existência sombria. Se eles constantemente atribuem a causa de seu fracasso às circunstâncias ou a outras pessoas, é apenas para enganar a si mesmos e esquecer que a causa está dentro deles. Como diz Kierkegaard, não é o fato de não termos nos tornado César que nos desespera, mas sim o fato de eu não ter me tornado César. Mas como podemos nos desesperar com esse eu se ele é nada menos do que a vinda de Deus a nós em Cristo? Esse desespero só é possível se, de uma forma ou de outra, o homem tiver esquecido o esplendor de sua condição inicial, sua condição de Filho de Deus - sua condição de "Filho no Filho".
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 105
É certo que os homens desta longa geração, desde Adão até os últimos tempos, tal como estamos constituídos e segundo as obras, podemos ser “filhos deste mundo ou filhos da luz” (a luz, já sabemos, é a Palavra). O mundo é o campo onde se semeia a boa semente, mas onde também cresce a cizânia. Quando se põe a semente a frutificar é ela mesma a senda que leva a ser “filho do Pai celestial”; mas é a boa semente que há em todos e não a cizânia nascida eventualmente no campo e que se agrega, ou se adere à boa semente, a que constitui ao homem em filho do Reino.
É esta dualidade de ser o homem em sua consciência natural, não somente semente — o Ser verdadeiro — mas cizânia pronta para ser queimada no fogo de sua própria e breve temporalidade, o que torna difícil entender ao homem como filho de Deus.
A semente é um grande desconhecido para a consciência psicofísica, uma incógnita a resolver mediante um esforço penoso e às vezes muito prolongado, e no entanto, a cizânia aparece sempre na superfície, em descoberto, como a realidade cotidiana de nosso Ser. Não obstante, quem por purificação e por fé aprende a discriminar a perdurabilidade bem-aventurada da semente eterna que constitui seu próprio Ser, e a brevidade dolorosa da cizânia, não dúvida em empreender o Caminho que leva a ser filho de Deus. E isso não por ambição de cizânia, senão para realizar a verdade da semente que-um-é.
Para explicar esse paradoxo do homem que é filho de Deus por semente, mas que aparece ante si mesmo como filho do mundo por cizânia, idealizou o apóstolo Paulo sua “figura teológica” do filho de Deus por adoção, que não foi bem entendida pela exegese manifesta.
Forma e substância nas religiões
«Estou no Pai, e o Pai está em mim»: é a identidade de essência. Mas «meu Pai é maior do que eu»: é a diferença de grau no seio da Realidade principial, portanto sempre incriada ou metacósmica. Atribuiu-se à primeira sentença o sentido de uma equação absoluta, relativizando-se, ao mesmo tempo, a segunda; em vez de combinar as duas sentenças e explicar uma pela outra, atribuiu-se arbitrariamente a segunda sentença apenas à natureza humana.